Já saquei a parada: Todos os dias, por volta das 14:29, os dois vem jogar dominó…
Ele, como sempre, usa uma jaqueta escura, encardida e amarrotada. Ela com uma blusinha preta que realça a sua pansa. Parece-me um daqueles casais que um foi o que sobrou pro outro, tem muitos assim.
Faxineiras conversam entre si, decidem quem vai limpar o que. Dou um “oi” educado para a mais jovem, ela responde timidamente com a cabeça. Elas comentam sobre a greve do metrô e uma dor de cabeça, culpa de um tal de café. Um engravatado chega e pede (manda com jeitinho) uma delas ir limpar uma sujeira que alguém fez na sala dele.
Penso: Sala dele, sujeira dele, ele é sujeira.
O dominó é só uma desculpa pra uma conversa e uns beijos, igual cafezinho e cerveja, só que mais barato.
Penso: As flores são de graça.
A mais jovem tosse, eu também to quase tossindo com esse cheiro de desinfetante barato.Ela tenta não olhar pra mim, ela si vê como um incômodo, todo mundo à vê assim.
Penso: E quem não é?
[...]
Carlos Ronchi



